O Louro Prensado e o Sistema Judicial e Policial Mal Pensado

O louro prensado que o tweet não resolve Do presidente da CML, em vez de desabafos, espero que vá até à raiz do problema, uma guerra territorial entre vendedores de droga falsa, o chamado louro prensado. 16 ago. 2026, 00:08 no Observador ----- “É inaceitável esta decisão”, escreveu Carlos Moedas no X: e até que concordo. “Sinal de falta de autoridade das forças de segurança”, disse (e também concordo), a propósito da libertação de um suspeito ligado ao desacato de segunda-feira na Baixa, onde uma turista sueca foi atingida por bala perdida. Contudo, o edil de Lisboa, com essa publicação, fez um serviço à direita radical e populista.(NOTA: aqui não concordo com o autor deste artigo,o que presta um serviço à direita é o facto de constantemente a lei e a ordem faltarem neste país) ------ Não se trata de desvalorizar o incómodo social (flagrante) de ver um suspeito em liberdade, sujeito a apresentações quinzenais numa esquadra. Nem de discutir as opções do juiz, que decidiu no âmbito de um processo distinto, o de violência doméstica em que o homem tinha sido detido, não diretamente pelo tiroteio, cujo papel nesse episódio a PSP ainda está a apurar e confirmar. Mas essa indignação instantânea, superficial, cabe a nós, cidadãos anónimos sem poder nem palco. De um autarca, presidente da Câmara da capital, vice-presidente do PSD e membro da Comissão Política Nacional do partido, espero muito mais: espero que vá até à raiz do problema que, tudo indica, é uma guerra territorial entre vendedores de droga falsa, o chamado louro prensado. Se a Polícia Municipal fosse mais persistente a fiscalizar esses vendedores, que operam na Baixa há mais de vinte anos, exigindo-lhes constantemente as licenças de venda ambulante que a lei permite, mas que raramente possuem, e coordenasse essa ação com a PSP local para deter quem não as apresentasse, este incidente talvez não tivesse acontecido. Mas é preciso dizer com honestidade que a Polícia Municipal não tem gente suficiente para operações sistemáticas e constantes deste tipo (apenas pontuais). Segundo uma estimativa – que não tem fonte oficial e apresento por isso com reservas – haverá menos de 300 agentes disponíveis para ações de rua em toda a Lisboa. Divididos pelas 24 freguesias, isso dá pouco mais de 12 agentes por freguesia, e mesmo esse número é enganador, porque a distribuição real não é uniforme, concentra-se nas zonas turísticas e deixa praticamente a descoberto o resto da cidade. Não é inércia, nem má gestão local é escassez estrutural no campo das grandes decisões políticas. E o reforço da PSP que agora vai, inevitavelmente, concentrar-se ainda mais nestas zonas turísticas, vai sacrificar a segurança pública nas zonas menos turísticas da cidade. Aqui Moedas tem, de facto, tentado agir, e é preciso reconhecer esse esforço: Desde 2024 que pede ao governo mudanças no regime de recrutamento da Polícia Municipal de Lisboa e do Porto, hoje limitado por lei a agentes da PSP, e em dezembro de 2025 conseguiu, por carta à ministra da Administração Interna, a abertura de 100 novas vagas, alegando uma quebra de 33% nos efetivos desde 2018. Em abril deste ano, o próprio ministro da Administração Interna admitiu publicamente que esse regime especial de recrutamento pode terminar. Ao mesmo tempo, essas 100 vagas vêm de dentro da PSP, a força que já está com falta de efetivos e é exatamente a que devia estar a investigar este caso. É essa contradição, gente tirada de um lado para tapar o buraco do outro, e não a falta de esforço, que merecia ser discutida publicamente, em vez de um desabafo genérico no X. Em paralelo, em vez de se queixar de forma pouco produtiva nas redes sociais, Carlos Moedas podia pressionar o seu grupo parlamentar a dar seguimento rápido à petição que pede à Assembleia da República a criminalização da venda de produto que se faz passar por estupefaciente no espaço público. A ideia central é simples. Vender folhas de louro, gesso ou outras substâncias inócuas fazendo-as passar por cocaína ou haxixe não se enquadra bem no crime de tráfico, porque não há substância proibida envolvida, nem no crime de burla, que na prática depende de queixa do lesado e raramente é apresentada por turistas de passagem. Esse vazio jurídico deixa impune uma prática que arrisca a saúde pública, porque quem compra nunca sabe ao certo o que está a levar, e que alimenta um ambiente de intimidação que já resultou noutros países em mortes, quando a substância vendida como droga é afinal algo tóxico. A petição propõe um novo número no artigo 21.º do Decreto-Lei n.º 15/93, punindo com pena até três anos quem vender ou oferecer estas falsas substâncias fazendo-as passar por droga, preservando ainda a possibilidade de respostas mais leves, como suspensão provisória do processo ou obrigação de não frequentar certos locais. É este o combate que precisa de argumentos sólidos e de pressão institucional persistente e não de indignação de ocasião estéril e populista num tweet. Artigo de Rui Martins https://observador.pt/opiniao/o-louro-prensado-que-o-tweet-nao-resolve/

Comentários

  1. AS JUNTAS DE FREGUESIA DO CENTRO DE LISBOA DIZEM (FINALMENTE) QUE A INSEGURANÇA É BASTANTE.

    Bala perdida e tráfico de droga relançam debate sobre crime e perceções na cidade de Lisboa. Autarcas de freguesias do centro histórico da capital falam em "sentimento de insegurança real".

    13 ago. 2026, 19:12 NO OBSERVADOR

    https://observador.pt/especiais/droga-violencia-e-uma-bala-perdida-juntas-de-lisboa-pedem-mais-seguranca-na-cidade/

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    1. O CORPO DE INTERVENÇÃO DA PSP A FAZER POLICIAMENTO

      https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/elite-da-psp-reforca-combate-ao-crime-na-baixa-de-lisboa

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  2. SÓ FALTAVA MESMO UMA MIGRAÇÃO CAÓTICA DE JAVALIS

    De Albufeira a Viseu, passando pelas praias de Setúbal, os bácoros estão a aparecer em todo o lado. E ninguém está preocupado em pôr ordem nisto, pelo menos até os suínos irem passear ao Martim Moniz

    19 ago. 2026, 00:21 no Observador, Tiago Dores



    Meus caros, após profunda reflexão, desejo partilhar convosco o seguinte: “não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só conhecem, sabem e debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos de pequenos incidentes, dos pequenos episódios, e deixar aquilo que é mais importante escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular e comentar a informação.” Ora, tendo isto em conta, hoje vou falar de javalis.

    Não sem antes mencionar aquela turista sueca que veio a Lisboa para testemunhar a luz única da cidade e que, por pouco, concluía se essa luz é mais ou menos única do que a luz ao fundo do túnel que testemunham os que passam para o lado de lá. Num instante, uma pessoa está a encher o bandulho com pastéis de nata; no instante seguinte, tem uma forte perceção de pontada no estômago, à qual é totalmente alheio o dito pastel.

    E à qual não será tão alheia uma bala perdida. Disparada por um empreendedor do setor agrícola que comercializava louro prensado como droga e que atirou, ao que tudo indica, contra um rival do mesmo ramo de actividade, mas acabou por acertar na turista. O suspeito saiu em liberdade, talvez porque, sendo verdade que vender louro por droga pode consubstanciar o crime de burla, não é menos verdade que, só por mérito deste menino, já se perdeu a conta a quanta gente abandonou o consumo de drogas depois de ficar agarrada a ervas aromáticas ótimas para temperar bifes. Por falar em bifes, lembrem-me de falar nos javalis.

    Ainda a propósito de pontadas no estômago, mas desta vez causadas pela fominha, celebrou-se há dias o centenário do nascimento de Fidel Castro, evento em que marcou presença o líder do ainda não extinto PCP. Paulo Raimundo assinalou que Fidel “deixou um rico e atual legado de reflexões, propostas inspiradoras e guias de ação”. Pois deixou. Por exemplo, se alguém quiser refletir sobre as propostas de ação inspiradoras que foram capazes de transformar todo um país numa grande ilha de lata, só pode chegar a uma conclusão: mais valia ser baleado, não fatalmente, a meio de um pastel de nata, do que ter a infelicidade de engolir comunismo durante décadas a fio.

    Engolir que, enfim, me leva aos javalis. Que, de repente, de Albufeira a Viseu, passando por Abrantes e pelas praias de Setúbal, andam a aparecer por todo o lado. E ninguém parece minimamente preocupado em pôr ordem nisto. Pelo menos até os suínos pensarem em ir passear ao Martim Moniz. Aí é que vão ver se o regabofe não se acaba depressa, seus bacorinhos.

    Mas lá está, os portugueses só sabem ver o lado mau das notícias. Em que outro sítio do mundo seria má notícia ter proteína de primeira, à solta pelas ruas e sem dono? Bastava andar com um grelhador no porta-bagagens e, ao cruzarmo-nos com ela, imobilizá-la — por meios humanos, como é óbvio, e não como o vendedor de louro prensado imobilizou a turista sueca — para depois a pormos a rodar no espeto. E enquanto nos deliciávamos com o petisco, já íamos delineando um plano de contingência para a próxima grande tragédia nacional: uma praga de lagosta a dar à costa.

    https://observador.pt/opiniao/so-faltava-mesmo-uma-migracao-caotica-de-javalis/

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